SBTVP - Sociedade Brasileira de Terapia de Vida Passada


O DISFARCE DA MEMÓRIA

Autor: Davidson Lemela

Uma das mais frequentes perguntas feitas por aqueles que se submetem ao processo da TVP, ou mesmo para os que simplesmente se interessam pelo assunto, é se aquelas supostas lembranças do passado, trazidas durante a regressão de memória, são mesmo recordações de outra vida ou se poderiam ser simplesmente frutos da imaginação.

Respondo essa pergunta com outra: saberia o leitor dizer qual a diferença entre imaginar algo ou recordá-lo de fato? Parece óbvio reconhecer quando estamos imaginando, fantasiando ou quando estamos nos recordando de algo que aconteceu. Muitas coisas sempre pareceram óbvias até que alguém mostre ou prove o contrário. No passado, por exemplo, quem duvidaria de que o sol não era menor do que a Terra? Diariamente, viam-no como um pequeno círculo avermelhado a percorrer o céu, indo de leste para oeste. Parecia óbvio que o Sol se movia em torno da Terra, que sempre pareceu imóvel; quem duvidaria disso? Mas alguém duvidou dessa certeza.

Pesquisas recentes com a memória revelaram que para as elaborações mentais como recordar, imaginar, fantasiar ou elaborar, são requisitadas as mesmas áreas do cérebro, ou seja, o lobo médio temporal e o pré-frontal esquerdo.

Assim, segundo essas pesquisas, não há diferença entre recordar algo de fato ou imaginá-lo. Nossa mente não distingue quando vemos um objeto com os olhos abertos ou quando o estamos imaginando; para ela tudo é real.

É evidente que a premissa da reencarnação causa certo impacto na opinião das pessoas. O fato possui características estritamente subjetivas, imponderáveis, distante de nossas experiências objetivas do dia-a-dia. E apesar do grande número de provas científicas que se avolumaram a favor da reencarnação, há um abismo de distância entre a razão e a emoção, entre o "crer" e o "sentir".

Certo paciente ainda jovem, que atendi recentemente, dizia estar seguro quanto a crença na reencarnação, não obstante declarar-se agnóstico. Disse que não tinha dúvidas quanto haver vivido muitas vidas antes. Porém, ao abrir os olhos após sua primeira sessão de regressão, declarou perplexo:

- Mas, meu Deus, o que é isso?

Depois de longos minutos em silêncio, com o olhar perdido nas lembranças que surgiram, voltou-se para mim admirado e perguntou:

- Mas eu vivi isso?

Ao que respondi:

- Você que contou a história. Não eu.

Um bom número de pacientes, após as primeiras sessões de regressão, comumente pergunta se aquilo tudo realmente se trata de alguma vida passada mesmo, ou foram eles que inventaram aquelas histórias. De fato não há como se provar isso, porém em nossa prática clínica, já se confirmou que mesmo o cliente não crendo tratar-se de vivências passadas, os resultados terapêuticos são alcançados da mesma forma, ou seja, a autenticidade das recordações é obtida através dos resultados alcançados.

Os personagens passados que surgem, acabam convidando o cliente a verificar que ele afinal, mudou pouco e que continua ainda sendo o mesmo orgulhoso, egoísta e intolerante. Sua depressão e tristeza continuam ainda sendo os reflexos de sua teimosia e do fato de ainda persistir em querer as coisas sempre do seu jeito. E ao final descobre que mudar é difícil; mais fácil é tomar remédios e esperar que eles resolvam seus problemas sem maiores responsabilidades, seguindo na vida lamentando-se de tudo, julgando-se vítima da sorte, de Deus ou dos outros, ao invés de mudar.

E aquelas histórias? "Bem, eu inventei tudo".

A fuga à responsabilidade com sua reforma interior representa uma nova perda ao ensejo de se melhorar, compromisso que provavelmente vem adiando há séculos, como bem mostram as histórias "inventadas".

Fica então claro para o terapeuta que muitos pacientes esperneiam mesmo e tentam fugir com desculpas do tipo: "é minha imaginação" ou "eu estou inventando isso".

Existem duas formas de se experenciar as vivências passadas: sem conteúdo emocional ou com manifestações organo-sensoriais, ou seja, com emoção ou sem emoção. As regressões com manifestações organo-sensoriais ocorrem em menor número e são aquelas segundo as quais os pacientes apresentam sensações físicas e emocionais durante a vivência. Porém, a maioria dos pacientes participa do processo de retrocognição sem conteúdo emocional, o que acaba levando muitos a desconfiarem das histórias. Porém, trata-se geralmente de uma válvula de segurança do Inconsciente, onde o cliente passa pelo processo da forma que pode tolerar, isto é, sem emoções. Lembra-se do passado como se lembraria de um filme. 

É evidente que os pacientes que revivem o passado sentindo emoções, tais como alegria, medo, dor ou raiva de forma mais intensa, encontram mais facilidade em acreditar que realmente se trata de sua própria história passada. O outro grupo pode achar que está imaginando ou inventando, cabendo ao terapeuta os esclarecimentos.

Para ilustrar o quanto a dinâmica do "recordar" e "reviver" é um fato marcante no processo, relato a história do Sr. Paulo:

Em nossa primeira entrevista ele aparentava uns dez anos a mais de sua idade. Com gestos lentos e fisionomia macerada sentou-se à minha frente em silêncio e de cabeça baixa. Cumprimentei-o sorrindo e quando nossos olhares se cruzaram, pude perceber certa súplica inarticulada em seus olhos; porém, naquele momento, com certeza, eu não saberia exatamente o que dizer. Ele havia sido encaminhado por um colega que alegou dificuldades em conduzir o caso em virtude das implicações psíquicas. Pensou que talvez eu pudesse orientá-lo melhor por ser espírita e acreditar "nessas coisas".

Tratava-se de um senhor de 54 anos, viúvo, dois filhos casados. Morava sozinho e encontrava-se naquela altura da vida impossibilitado em conduzi-la. Fora incentivado a procurar um terapeuta por insistência da filha que também freqüentava um psicólogo desde o dia em que a fatalidade abatera-se sobre a família

De olhos baixos, roupas mal cuidadas, barba por fazer, procurava demonstrar uma calma que estava longe de possuir. Era visível que os vários quilos acima de seu peso não eram mais difíceis de carregar do que aquela culpa que nos últimos tempos não lhe dava tréguas um minuto sequer. Um pensamento obsessivo o perseguia: a cena trágica de seu ato tresloucado que não lhe saía da mente. Funcionava à maneira de um circuito fechado de TV, fazendo-o revivê-la constantemente, provocando freqüentes crises de choro e intermináveis noites de insônia.

Seu caso não era uma indicação à TVP, pois seu problema não estava no passado, mas no presente. O Sr. Paulo havia assassinado a própria esposa. Ficara preso um ano e depois de julgado fora absolvido; contudo sua consciência não o perdoara. A justiça humana entendeu tratar-se de uma "lavagem de honra", uma vez que ficou provado que a sua companheira o traía acintosamente. Foi em um momento de insanidade, durante uma discussão onde supostamente ela lhe reprochara a reputação, que ele enterrara o punhal várias vezes no peito da esposa num verdadeiro acesso de fúria.

Porém, a despeito da absolvição legal, no íntimo de seu ser permanecia a acusação implacável: condenado sem remissão. Culpava-se constantemente e repetidas vezes, entre lágrimas, alegava que a amava e não se perdoava pelo que fizera. Posteriormente tentara o suicídio, mas foi socorrido e incentivado a buscar ajuda psicológica; no momento em que componho esses escritos ele já se encontra bem melhor.

Mas o que tem a ver essa história com as hipóteses que vínhamos discutindo? Freqüentemente conto esse caso aos meus clientes e explico que as vivências passadas são experiências reais vividas por eles no consultório, porém na forma que possa ser preservada sua integridade psicológica. Caso, durante a regressão de memória, recordassem das dores do passado, dos traumas e crimes cometidos, com a mesma realidade e intensidade que o Sr. Paulo se lembra do assassinato da esposa, a regressão não seria terapêutica, pelo contrário, tornaria sua vida atual mais difícil do que já é, e com certeza o cliente não retornaria para a sessão seguinte.

Por essa razão, para aquele que se submete ao processo da TVP, sempre ficará uma ponta de dúvida: "será que tudo isso é verdade mesmo, ou será que inventei tudo?" Isso é o que afiança sua integridade psíquica, tornando o procedimento viável e, comprovadamente, terapêutico.

Atravessar uma experiência de regressão à vidas passadas, significa revive-la diluída, porém concentrada. Podemos experimentar em 30 minutos, deitados confortavelmente na poltrona do consultório, os pontos mais profundos de alguns fatos que podem ter levado anos. Contudo, agora os sentimos livres do seu desespero, da sua dor exacerbada. Emergem a tristeza ou a raiva, porém sem a dor. O ego permanece intacto durante o processo enquanto se obtém a catarse. Entramos na experiência com vontade própria, o que nos garante sairmos ilesos.

Por esse motivo, é comum ouvirmos frases do tipo: "Será mesmo? Eu não estou inventado tudo?" As lembranças precisam ser escamoteadas pela dúvida; precisa parecer algo que realmente já aconteceu há muito tempo para que possam tornar-se terapêuticas. E caso fosse mesmo possível imaginar tudo isso, não haveria histórias melhores para se inventar, sem tanta dor e desespero.

Elaine de Lucca em seu livro As faces do invisível, esclarece que: "Ninguém deve ter medo de fazer esse trabalho (TVP), pois quem não estiver preparado não verá ou só verá aquilo que for permitido (...) quem vê é porque lhe é permitido, chegou sua hora".

O indiano Dr. Banerjee (1979), pesquisador da reencarnação desde 1953, tinha como preocupação provar que essas lembranças não poderiam ser obtidas por vias normais, mas pelo que ele chamou de "memória extra cerebral". Diz ele:

"É fato científico que ninguém é capaz de lembrar o que não aprendeu anteriormente. Nos casos de memória extra cerebral, o conhecimento do fato existe, não na vida atual do sujeito (nas pesquisas cuidadosamente controladas que realizei, não houve qualquer oportunidade para que o sujeito tivesse tido conhecimento na sua vida presente da pessoa que ele ou ela afirmaram terem sido), mas somente na vida anterior".

O professor Miranda (1994), explica que a mente funciona por um processo dinâmico. Diz ele que seria difícil fazer alguém imaginar um oceano sem nunca tê-lo visto, pelo menos uma vez. A pessoa teria que criá-lo em sua mente com imagens de rios ou lagos de seu conhecimento.

Devemos considerar que nunca surge algo novo, mesmo quando falamos em fantasia. Na verdade, se trata da manipulação de informações contidas na memória, através de um processo dinâmico e complexo que, não obstante, pode suscitar muitas interpretações. A fantasia, portanto, é a organização de material conhecido contido na memória, e a lembrança de vidas passadas é obtida a partir de experiências pessoais e reais acessadas através da técnica da regressão de memória.

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