SBTVP - Sociedade Brasileira de Terapia de Vida Passada


NÃO SINTO RAIVA, DR !

Autor: Davidson Lemela

NÃO SINTO RAIVA, DR.

 

Existe, nas religiões em geral, e dentro do espiritismo em particular (ou em alguns espíritas), uma cobrança velada, e até, às vezes, declarada, para que nos tornemos bons.

Muitas mensagens, livros e textos são escritos advertindo-nos de que não podemos errar mais, ficar com raiva, dizer não e magoar os outros, que já não podem mais se decepcionar conosco, e por aí vai.

Uma série de desafios que o pobre cristão precisa enfrentar se quiser ganhar os céus, caso seja católico, ou o Nosso Lar, se for espírita.

É um desafio sem preço, que trabalha com expectativas inatingíveis, pois, não se iludam, nessa vida não seremos bons. Vamos errar bastante ainda e sentir muita raiva. O intento acaba provocando uma sensação muito grande de frustração e impotência, na medida em que percebemos que não conseguimos ser ainda aquela pessoa que gostaríamos.

Costumo dizer aos meus pacientes que devemos trabalhar com a expectativa da Redução do Dano e melhorar o que é possível.

Imagine o leitor que tivéssemos ao nosso lado uma escala numérica de 1 a 10 com um ponteiro indicando nosso nível de exigência. Este está relacionado, diretamente, com nossa prepotência (dificuldade em lidar com o que nos contraria). Então quanto mais exigente, mais prepotente, e vice-versa.

Vamos ainda imaginar que nosso nível de exigência está indicando na escala o valor 8. É alto. Quem possui valor 8, fica, frequentemente, com raiva quando é, de alguma forma, contrariado. Pode ser pela vida, pelas coisas, pelas pessoas, por Deus... não importa. (a maioria de nós se encontra por aí).

A Redução do Dano consiste no seguinte: você não irá conseguir zerar seu nível de exigência nessa vida, esqueça. Mas pode diminui-lo. O valor é 8? Baixa para 7,5, já está bom. Depois você reduz para 7. Se desencarnar com 6,5, está ótimo. Irá ser mais feliz.

Acredite, você está fazendo o seu melhor.

Você fuma um maço de cigarros por dia, sabe que faz mal, quer parar, mas não consegue? Tudo bem, fuma meio maço.

Tem o hábito de falar mal dos outros? Sem problema, fala só de manhã, à tarde descansa... a língua.

Atendi uma paciente, recentemente, espírita militante que dizia não sentir raiva. “Raiva eu? Não, não sinto raiva”. Estávamos conversando sobre esses assuntos e ela não conseguia perceber o quanto era exigente e controladora.

– Mas isso é raiva – disse eu.

– Não, não sinto raiva. Às vezes fico magoada, triste, mas raiva não sinto não Dr.

– Claro que sente, todos nós sentimos.

– Eu não sinto.

– Sente.

– Não sinto.

Bem, caro leitor, a paciente saiu aquele dia do consultório com raiva de mim.

Na semana seguinte ela entrou na sala, sentou na poltrona, respirou fundo, franziu a sobrancelha e me olhou de modo severo. E eu perguntei:

– Tudo bem?

– Não, não está!

– Como foi a semana?

– Péssima!

– Mas o que aconteceu? – perguntei curioso.

Ela colocou a mão na testa e respondeu quase aos prantos:

– Descobri que sou um poço de raiva.

Enfim a tomada de consciência:

– Mas você acha ruim sentir raiva?

– Meu Deus, é horrível... como vou ajudar as pessoas lá no centro? Como vou dar passes?...

Eu disse a ela que estamos autorizados a sentir raiva, pois que somos imperfeitos. Temos o direito de errar, mas o dever de se corrigir. Deus não fica zangado porque erramos, porque se ele quisesse nos teria feito iguais a um robô, aí não sentiríamos raiva, nem magoaríamos ninguém.

Ela me olhou emocionada e eu arrematei:

– Pior que sentir raiva, disse, é sentir e não saber. Só conseguimos mudar se nos conhecermos melhor. Caso contrário seguimos pela vida nos enganando, vestindo máscaras, adiando nossa felicidade e perpetuando nossa dor.

 

 

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