SBTVP - Sociedade Brasileira de Terapia de Vida Passada


PSICOTERAPIA E ESPIRITUALIDADE - o percurso da TVP

Autor: Débora Sóglio

PSICOTERAPIA E ESPIRITUALIDADE:
O PERCURSO DA TERAPIA DE VIDA PASSADA

1. INTRODUÇÃO

Questões relacionadas à espiritualidade sempre permearam o imaginário humano, desde milênios, demonstrando uma inquietação acerca do sentido da vida, do nascer e o morrer, da finitude e fragilidade da matéria, das diferenças biopsicossociais do ser, da sensação ou impressão da existência ainda que não palpável de que algo maior, uma entidade ou um deus, rege e detém todo o mistério da vida.

O espaço para esses questionamentos foi se construindo e se constituindo ao longo do tempo, através de instituições religiosas na sua mais repleta diversidade. Foi se indicando onde e de que forma deveríamos examinar questões tão primitivas relacionadas à vida e à própria existência.
Historicamente, foram-se separando as questões espirituais (emocionais e, portanto subjetivas) das lógicas, racionais e/ou cientificas.
Na idade média, muitas atrocidades aconteceram em nome destas instituições religiosas que detinham o saber e o poder sobre os povos. Propunham-se a controlar seu sentir e seu pensar.
Na idade moderna com o advento do Iluminismo, a ciência fortalece seu saber e consequentemente seu poder de influência na forma de pensar e agir das pessoas. Questões relacionadas à espiritualidade e religiosidade são desqualificadas em favor do pensamento racional e lógico.
Nesse momento se caracteriza de forma  determinante as dicotomias: razão e emoção, o bem e o mal, o belo e o feio, a mente e o corpo e por fim, a ciência e a espiritualidade.
É importante ressaltar que, o conceito de espiritualidade aqui proposto não se refere diretamente a aspectos religiosos.
Esclarecendo esse conceito mais amplo de espiritualidade atentemo-nos a citação seguir: 
Dimensão que integra e transcende as outras dimensões humanas, é o princípio de vida que permeia a pessoa por inteiro, incluindo a volição, a moral, a ética, a arte, os valores, as tradições, a fé e a fonte da própria consciência. (Frankl, 1992 apud ARAUJO, 2008, p.13).

O termo espiritualidade envolve questões quanto ao significado da vida e à razão de viver, não limitado a tipos de crenças ou práticas.
Embora a idade moderna e a contemporânea, mantenham a dicotomia mente e corpo, razão e emoção, ciência e espiritualidade, as inquietações quanto ao sentido da vida e seus mistérios continuam a existir cada vez mais de forma menos velada pelo individuo.
A própria medicina pautada na ciência positivista/ naturalista, começa a render - se às questões mais transcendentes do ser humano, na tentativa de promover uma saúde mais eficaz e prevalente aos indivíduos.
Nobre (2004), médica e presidente da Associação Médico Espírita (AME) - Brasil não deixa duvidas dessa realidade, quando descreve em seu artigo, a necessidade eminente de buscar compreender o mundo de forma mais abrangente:
Cada vez mais, “minorias criativas” buscam a integração entre Fé e Razão, tendo em vista que é impossível compreender o mundo, o universo e o próprio ser humano, sem as luzes de um paradigma, de um modelo, que contemple todas as áreas das cogitações humanas. ”(...) Foi assim que ganhou impulso, na década 1970, uma dessas minorias criativas, formada por médicos que buscam implantar nas universidades estudos de Medicina e Espiritualidade. (p.1).

Nesse cenário histórico, a psicoterapia, conhecida conceitualmente como sendo uma técnica psicológica, colocada a disposição do individuo com objetivo de promovê-lo na resolução de conflitos e/ou traumas geradores de sofrimentos, não escapa estruturalmente do modelo positivista e cartesiano original.
Diferentemente de outras áreas que também se dispõem ao atendimento do individuo, a psicoterapia vem evoluindo em sua pratica, buscando “humanizar” a relação permitindo maior aproximação e acolhida do mesmo em sua totalidade. Geralmente pondera fatores diversos tais como: espiritualidade, mas de um modo geral, desqualifica este aspecto como material terapêutico importante e promotor de melhora no quadro de sofrimento que se apresenta. Em outras palavras, esta característica do ser humano é extensamente confundida com religiosidade e talvez por este motivo, não encontre lugar no espaço terapêutico tradicional.
Foi nas décadas de 80 e 90 que esse ramo profissional, ou seja, a psicoterapia originada da Psicologia se surpreende com uma nova metodologia vinda da Europa e dos Estados Unidos da América, denominada Terapia de Vida Passada.
Esta técnica foi criada por Morris Netherton, psicólogo americano que estruturou o método com base na regressão de memória, onde conteúdos inconscientes da vida do cliente são acessados, retornando a varias instancias da vida: adulta, infância, vida intrauterina e a vidas passadas.
Ainda nos anos 80 o físico francês, Drouot (1988) começou a publicar suas pesquisas sobre TVP.  Em sua primeira obra, enfatiza:
A viagem através das vidas passadas permite alargar o conceito da tomada da consciência através da noção de continuidade do destino. Permite também pôr em evidência as más utilizações que fazemos do poder, do egoísmo, da perda do amor. E essa tragédia se repete sem cessar, enquanto emitimos falsos julgamentos em relação a nós mesmos, enquanto estamos limitados por falsas crenças. Somos como crianças separadas da última fonte e não podemos sem ajuda encontrar sozinhos, o caminho para ela. (p.80).

Parece que, nesta perspectiva, a terapia vai alem dos limites impostos pela Psicologia ortodoxa para encontrar e solucionar os traumas ou problemas trazidos ao set terapêutico.
A complexidade do inconsciente humano é considerada alem de um banco de memórias que se limitem apenas a vida atual do individuo.
Para a ratificação deste fato, o Presidente da Associação Brasileira de Estudo e Pesquisa em Terapias de Vivencias Passadas, Michel C. Maluf personalidade que também prefaciou o mesmo livro de Netherton, referente à edição brasileira, conceitua a TVP da seguinte forma:
É uma nova técnica psicológica de abordagem do inconsciente, relacionada com traumas, problemas psicossomáticos, comportamentos emocionais e mentais das fases mais precoces da vida, incluindo a concepção, a vida intra- uterina, o nascimento, a infância, as mortes anteriores à atual vida e outras vidas. Pesquisa o problema onde ele estiver. A técnica vai alem das fronteiras estabelecidas. (NETHERTON, 1997, p.9)

Neste sentido, Guimarães (2004), fundadora da SBTVP apresenta alguns argumentos teóricos sobre questão de assumirmos responsabilidades diante da vida, que devem ser ressaltados, fundamentalmente pela clareza da proposta:
Na verdade todos sabemos quem somos. O problema é assumirmos a responsabilidade do que somos, o que é muito difícil, pois daí implica abandonarmos nosso papel de vítima, de injustiçados pela vida, pelas pessoas ou pelo destino. (p.35).

No prefácio de um dos trabalhos escritos por Guimarães (2000), encontramos falas referidas ao objetivo desta terapia, descritas por, Célia Monteiro Werner e Neusa Passos Feijó:
[...] a SBTVP objetiva com esta técnica não só curar dores do cliente, mas uma consciência maior em ser mais brando, mais resignado, daquilo que não pode ser mudado e mais amoroso para que possa ser feliz. (p.18).

Embora seja extensivamente usada por médicos e psicólogos nos últimos 20 anos, sofre críticas penosas fundamentalmente da sociedade cientifica e de profissionais ortodoxos por enquadrar no set terapêutico, o conceito de vidas passadas que se relaciona intimamente ao conceito de reencarnação.
É importante ressaltar que o conceito de reencarnação advém de crenças espiritualistas (orientais e ocidentais) e que embora renomados pesquisadores atentem para a evidência de tal fato, ainda não foi comprovada pelos métodos cientificamente aceitos na atualidade.
Para a SBTVP, a crença de que o espírito é imortal e reencarna é pressuposto fundamental da TVP.
Em defesa da TVP e de seus pressupostos teóricos, Lucca e Possato (1998), consideram: 
[...] O simples fato de ainda não compreendermos totalmente evidencias, fatos comprovados, depoimentos, pesquisas, não significa necessariamente ser a TVP fruto de fantasia, imaginação, alucinação ou alguma outra explicação simplista comumente desferida pelos incrédulos. Pode-se, por que não, recusar-se a acreditar em reencarnação e vidas passadas, porem os resultados práticos não podem ser negados [...]. (p.10).

Para os teóricos da TVP, antes de desejarem comprovar o conceito de reencarnação, importam–se fidedignamente com os resultados obtidos por tal método. A resolução das questões trazidas aos consultórios em menor tempo que as propostas terapêuticas tradicionais, acompanhadas obviamente da exclusão do sofrimento e do amplo conhecimento de si mesmo, fortalecem sua utilização e procura.

2.DESENVOLVIMENTO

Influência da Filosofia

A busca por respostas às duvidas e a compreensão de fatos que comprovem e expliquem a origem das causas e transformações do mundo e do homem, este como um ser em constante mutação e aprimoramento, vem se constituindo a milhares de anos.
Amaro (2009) refere em seu texto, Breve Histórico da Psicoterapia, que a psicologia embasa a psicoterapia conceituando-a desta forma: “A Psicoterapia consiste no uso de meios psicológicos para atingir objetivos terapêuticos em pacientes com transtornos psíquicos, físicos ou sociais.” (grifo do autor.)
Em uma de suas aulas expõe que o uso de meios psicológicos para favorecerem indivíduos e grupos, já acontecia em sociedades chamadas pré- letradas (pré- históricas), através dos reconhecidos feiticeiros, poderosos por manipularem as forças da natureza e fundamentalmente exercerem a cura, o acesso aos espíritos e ao conhecimento divino.
A história aponta que esta idéia e comportamento são substituídos posteriormente pela idéia dos mitos advinda dos gregos.
No início do século VI antes de Cristo, nasce a Filosofia, que significa literalmente na tradução do grego (língua original da palavra) "Amizade pelo Saber" e define uma forma característica de pensar: o pensamento racional.
O surgimento da filosofia deu-se a partir de alguns fatos significativos como as viagens marítimas; a invenção do calendário; da moeda e da escrita; o surgimento da vida urbana entre outras, foram marcos que estimularam o convívio e o pensamento coletivo.

Influência da Fisiologia

As influências da fisiologia na Psicologia ocorreram devido às diferenças individuais, determinadas por fatores pessoais e incentivaram os cientistas do século XIX a investigarem e considerarem fatores de ordem subjetiva, como sensações e emoções na percepção dos fenômenos mentais, através dos órgãos dos sentidos.
Vários foram os cientistas que recorreram ao método experimental, portanto novo, para o estudo e qualificação da psicologia enquanto ciência positivista, centrando suas pesquisas em fatores materiais tais como: velocidade dos impulsos nervosos e sua relação com tempo de reposta muscular, visão e audição, sensações cutâneas e musculares, percepções, etc.
Wundt que, influenciado por Fechner, deu à psicologia, técnicas de medidas precisas, sendo considerado fundador de uma Nova Psicologia.
Posteriormente, Wundt sofreu criticas densas aos conceitos dispostos em seus estudos, já que considerava a mente como processos mensuráveis. As criticas apontavam falhas no desenvolvimento pré-estruturalista proposto. Com isso teve que desvincular seu trabalho com um passado não exatamente científico (segundo a idéia vigente), cortando vínculos com a velha filosofia mental, abandonando assim as discussões sobre a natureza da alma imortal.
Nasce então outro movimento norte americano, o Behaviorismo, fortalecendo a idéia de que o comportamento é mais importante que os processos mentais, por estes não serem facilmente observáveis e não poderem sofrer a mensuração do método cientifico amplamente aceito.
Concomitantemente ao aparecimento do Behaviorismo, na Alemanha crescia a chamada Psicologia da Gestalt (que significa forma, estrutura).
A psicologia da Gestalt, no lugar de criticar o objeto de estudo do estruturalismo, que no caso era a mente, se apropria do mesmo refletindo as questões de forma mais ampliada e estabelecendo críticas ao método do estruturalismo, assim como ao reducionismo praticado pelos behavioristas.
O advento da Idade Moderna e a Contemporaneidade
Alheio às influências da psicologia acadêmica, crescia na Europa uma nova teoria chamada de Psicanalítica, fundada por Sigmund Freud.
A forma como se estruturou a proposta psicanalítica não é muito clara.
Para a psicanálise a existência do inconsciente está acima do consciente, e nos impulsiona a buscar satisfazer necessidades instintivas, dentro do contexto biopsicossocial que o homem está inserido.
A revelia das teorias acadêmicas e propostas até então, supervaloriza a questão da mente inconsciente, como aspecto fundamental no entendimento, compreensão e cura do sofrimento humano.
Causa com isso um grande desconforto no meio cientifico positivista, mas não recua às exigências e posteriormente é aclamado graças ao método de hipnose com consequente cura dos casos de histeria atendidos na época.
Para Jung, seu discípulo fiel e posterior dissidente, a libido se caracteriza por aspectos históricos vividos pelo individuo, assim como sua cultura e sua relação com questões vinculadas a espiritualidade.
Segundo a Wikipédia (2009), uma enciclopédia virtual, define-se o inconsciente coletivo da seguinte forma:
[...] é a camada mais profunda da psique humana. Ele é constituído pelos materiais que foram herdados da humanidade. É nele que residem os traços funcionais, tais como imagens virtuais, que seriam comuns a todos os seres humanos.

Em paralelo ao crescimento da psicanálise, a psicologia fenomenológica, começa a surgir propondo outra forma de compreensão dos processos psíquicos do ser humano, tendo como seu principal representante, Edmund Husserl.Embora o discurso trouxesse a ideia de um homem integral, nesta teoria, a questão da espiritualidade e da essência da alma não são se quer citadas tão pouco consideradas.
No final dos anos 60, com um pequeno grupo de pesquisadores, dentre eles Anthony Sutich, Abraham Maslow, James Fadiman e Stanislav Grof criam um movimento  chamado de Psicologia Transpessoal. Reconhecem que Jung, o criador da Psicologia Analítica, tenha sido o primeiro a considerar a dimensão espiritual do ser humano no processo psicoterapêutico e ratificam esse entendimento sobre a psique humana.
Seguindo a evolução e as necessidades emergentes do ser humano, na busca continua de entendimento e do significado do seu existir e ainda, considerando o alto grau de sofrimento em que a sociedade moderna se encontra, surge na década de 80, já na chamada Idade Contemporânea da historia, a TVP, vinda da Europa e dos Estados Unidos da América, tendo como precursor Morris Netherton, psicólogo americano que estruturou o método com base na regressão de memória, onde conteúdos inconscientes da vida do cliente são acessados. Seus estudos sistematizados contam com mais de 30 mil casos de regressão de memória que remeteu os pacientes a vidas distintas da atual. Com o apoio de documentos históricos confirmou dados revelados nas regressões.
Sobre o método, podemos observar nos escritos onde, como outras teorias (Freud e Jung), admite a existência do inconsciente na mente humana, funcionando como um grande armazenador das experiências, embora não nos lembremos de tudo que nos acontece na vida.
Netherton, (1997) descreve os conceitos que embasam a teoria e o método em seu livro, Vida Passada - Uma Abordagem Psicoterápica, o que vemos a seguir:
É um método terapêutico. Não esta, de modo algum, associado ao ocultismo, exceto quanto ao fato de compartilhar da aceitação da possibilidade da reencarnação. [...] O inconsciente funciona como um gravador. Registra e armazena indiscriminadamente todo e qualquer acontecimento que ocorra. (p.34).

A TVP fecha este capítulo com a marca de um novo paradigma na compreensão e na abordagem dos aspectos saudáveis e patológicos do psiquismo humano, pois se reserva o direito junto à ética, de considerar no espaço terapêutico questões relacionadas à espiritualidade. Questões estas que acompanham o ser humano ao longo da historia como pudemos observar até aqui, ainda que este fato contrarie as proposituras da ciência cartesiana e positivista.

2.2 ESPIRITUALIDADE - CONSIDERAÇÕES SOBRE O CONCEITO E A TVP  

O conceito de espiritualidade acompanha as inquietações humanas também ao longo de milênios.
Nas antigas religiões, desde a pré-história, a ideia de um deus ou de deuses, ou ainda “das forças da natureza”, podem ser entendidas como referencias que a humanidade da época oferecia à questões que fugiam do entendimento possível e concreto da época.
Nesse tempo antigo também era comum ouvirmos falar em rituais que tinham como objetivo estabelecer contato com divindades, desvendar mistérios, promover a cura e alimentar de certa forma a idéia da imortalidade.
Filósofos como Sócrates e seu seguidor Platão, discorriam sobre a ideia da existência de instâncias divinas/mitológicas que se relacionavam com o homem, através de sua essência: a alma.
Durante a idade média, os conhecimentos da Grécia foram totalmente perdidos no ocidente. O intercambio de nações, possibilitou um resgate histórico de algumas idéias vinculadas a espiritualidade. No texto Historia... (2009), podemos observar:
[...] contato com o mundo islâmico, onde os manuscritos gregos foram preservados e elaborados, rapidamente levou a um grande volume de traduções no século XII. Os europeus foram então reapresentados aos trabalhos de Platão e Aristóteles, assim como ao pensamento islâmico. Pensadores cristãos escolásticos, em particular Abelardo e São Tomás de Aquino, combinaram o sistema de classificação aristotélico com as idéias de Platão sobre a excelência de Deus, e de que todas as formas de vida em potencial estavam presentes numa criação perfeita, para organizar todos os seres animados, inanimados e espirituais em um grande sistema interconectado: Scala naturae. (grifo do autor).

Essa ideia vai embasar o conceito de espiritualidade na idade média, já com o advento da doutrina Cristã e a retomada de valores bíblicos que seguem até os tempos atuais, considerando a evolução do homem e do mundo.
As ciências naturais tendem a render-se diante da notícia de que a espiritualidade não está mais sob o julgo desta ciência materialista.
Principalmente a medicina e a psicologia, passam a repensar seu papel no trato com pessoas, visto que estas são mais do que sintomas, do que corpos doentes ou saudáveis. São seres complexos e historicamente espiritualizados.
É o que podemos constatar no texto que segue
Desde o início da década de 1980, a medicina vem se direcionando a uma visão mais abrangente do modelo de atendimento na área da saúde, enfatizando a importância de fatores ambientais e psicossociais (Engel, 1980). A medicina moderna encontra-se em fase de transição e está à procura de novas fronteiras e caminhos para a evolução do conhecimento. O direcionamento científico da medicina aponta as áreas da biologia molecular, genética, farmacoterapia e acupuntura, mas também há reconhecida tendência para o estudo da espiritualidade (Koenig, 2004, PERES et  al, 2007).

Nesse período de questionamentos modernos e ao mesmo tempo, de velhos conhecidos nossos, deparamo-nos com a TVP, que busca conciliar (e o faz) conceitual e na prática, uma relação harmônica entre terapia e espiritualidade no set terapêutico.
O Brasil, terra das miscigenações de raças, culturas e religiões, nos pré dispõem a crer em relações intrínsecas entre a questão da saúde e da espiritualidade.
Quanto a este fato apontamos a TVP como aquela que considera, integra e concilia estas características:

A TVP, nascida em meio à medicina dita “científica”, vem resgatar as antigas tradições xamânicas, com um detalhe que a distingui: não existe mais o cunho do exotismo, esoterismo, curandeirismo. Firmando-se como um novo degrau para psicologia, a TVP une conceitos espirituais e terapêuticos em um caminho único. (LUCCA e POSSATO 1998, p.11).

2.3 A REENCARNAÇAO COMO CRENÇA E PRESSUPOSTO TEÓRICO DA TVP

No que diz respeito à reencarnação, Farias (2003) discorre sobre uma conversa tecida entre Celestino e um rabino judeu situando a bíblia como o livro mais antigo a apontar sua existência:
O rabino Arieh Kaplan afirma que: Não é possível entender a Cabalá sem acreditar na eternidade da alma e suas reencarnações’. Com o nome de ‘Transmigração das Almas’, todo o povo judeu, inclusive a corrente ortodoxa hassídica, acredita que depois da morte a Alma reencarna numa nova forma física... A reencarnação é uma crença fundamental do hassidismo. Seus conceitos constam dos livros Sefer Ha-Bahir(Livro da Iluminação), primeiro livro da Cabalá judaica e do Zohar (Livro do Esplendor). Ambos os livros atribuem grande importância à doutrina da reencarnação, usada para explicar que os justos sofrem porque pecaram em uma vida anterior. Nele, o renascimento é comparado a uma vinha que deve ser replantada para que possa produzir boas uvas. (p.3, grifo do autor).

No Ocidente, vários filósofos gregos trabalharam com a idéia da reencarnação, a começar por Pitágoras. Ele afirmava ter vivido antes como guerreiro troiano, comerciante, agricultor e prostituta.
Platão defendia que a alma é imortal, antecede o nascimento e reencarna diversas vezes. Cada alma escolheria sua próxima vida, a partir de suas experiências nas vidas anteriores.
Discípulo de Platão, Aristóteles inicialmente adotou as idéias do mestre. Depois passou a opor-se aos conceitos de imortalidade e de reencarnação.
O influente teólogo e escritor Alexandrino Orígenes (185 d.C. - 254 d.C.), por exemplo, aceitava a reencarnação.
Outro artigo divulgado em espaço virtual sob o titulo Reencarnação, traça uma trajetória extensa a respeito do surgimento deste tema, mostrando que é uma idéia que nos acompanha a tempos remotos:
Pensa-se que a reencarnação foi inventada pela Doutrina Espírita, entretanto vamos encontrá-la já na Antigüidade... os povos da Índia, Egito, China, Pérsia e Grécia acreditavam que a alma poderia ter várias vidas.
Gabriel Delanne, diz no livro A Reencarnação que iremos encontrar nos Vedas (1.300 a.C.), que é o conjunto de textos sagrados, base fundamental da tradição religiosa – do Bramanismo e do Hinduísmo – e filosófica da Índia esta passagem:
A alma não nasce nem morre nunca, ela não nasceu outrora nem deve renascer; sem nascimento, sem fim, eterna, antiga não morre quando se mata o corpo. Como poderia aquele que sabe impecável, eterna sem nascimento e sem fim matar ou fazer matar alguém? Assim como se deixam as vestes gastas para usar estes novas, também a alma deixa o corpo usado para revestir novos corpos. Eu tive muitos nascimentos e também tu, Arjuna; eu as conheço todas, mas tu não as conheces [...] (Delanne, 1987, p. 22, apud SOBRINHO, 1995, p.1).

Como vemos, a concepção da continuidade da vida e das vidas sucessivas aporta povos de todo o mundo, com maior ou menor crédito, mas inevitavelmente presente na historia da humanidade.
Mariléa Castro, prefaciando o livro Tempo de Amar - A trajetória de uma alma, de Guimarães (2004), demonstra a resistência às evidencias relacionadas ao tema:
A hipótese da reencarnação já acumulou tantas e tão solidas evidencias, com pesquisadores mais do que sérios e credenciados, que se pode dizer sem exagero, que qualquer outra teoria com metade destas evidências já teria sido adotada pelo menos como hipótese de trabalho por cientistas de qualquer área. Parece mesmo que nenhuma outra idéia, no ocidente, jamais recebeu tamanha repulsa e tanta ojeriza ao ser pesquisada pela comunidade cientifica. (p.15).
Pincherle (1990), pesquisador da TVP, faz menção às descobertas de Jung a respeito da reencarnação e da impossibilidade que se viu posto na época, não esclarecendo fidedignamente suas descobertas:
Numa de suas aulas em São Paulo, Morris Netherton contou-nos que numa viagem a Suíça procurou a filha de Jung. Ela mostrou-lhe uma serie de paginas, manuscritas pelo pai, nas quais afirmava, já no fim de sua longa vida, que certas memórias que surgiam do inconsciente poderiam ser explicadas pela reencarnação. Essa afirmação foi tão mal vista por seus editores, que no livro impresso, frases inteiras haviam sido modificadas. Onde nos originais se via a palavra “reencarnação” lia-se “memórias provindas do inconsciente coletivo. (p.19).

2.3.1 As Contribuições do Dr. Ian Stevenson à Ideia da Reencarnação e a TVP

Ian Stevenson ficou carinhosamente conhecido como o “caçador de vidas passadas”. Foi a maior autoridade mundial no estudo da reencarnação com método científico. Não conseguiu provar que, em nossa trajetória evolutiva, nós realmente vivemos (e morremos) muitas vezes. As descobertas realizadas e o imenso acervo que coletou de casos que sugerem reencarnação, fizeram-no chegar a poucos passos das provas definitivas.
Graduado em medicina, professor de psiquiatria e diretor da Divisão de Estudos da Personalidade (atualmente, Divisão de Estudos da Percepção) da Universidade de Virgínia, dedicou mais de 40 anos à pesquisa da reencarnação e escreveu mais de 200 artigos e livros fundamentais sobre o tema.
Com os seus trabalhos sobre a reencarnação ele tornou-se mundialmente conhecido.

2.3.2 Dr. Hernani Guimarães Andrade: Contribuições de um Pesquisador Brasileiro

Pioneiro na pesquisa do efeito Kirlian e da transcomunicação instrumental em nosso país, o engenheiro e psicobiofísico Hernani Guimarães Andrade foi também o introdutor no Brasil da metodologia de Ian Stevenson para o estudo de casos sugestivos de reencarnação. Stevenson veio a São Paulo em 1972 e seus arquivos abrigam casos brasileiros estudados pelo Instituto Brasileiro de Pesquisas Psicobiofísicas (IBPP), presidido por ele. Estes estudos realizados segundo o modelo elaborado por Stevenson, renderam dois livros: Reencarnação no Brasil – Oito Casos que Sugerem Renascimento e Renasceu por Amor – Um Caso que Sugere Reencarnação: Kilden & Jonathan.
Hernani estudou na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), onde se formou em 1941, construindo ao longo do tempo um currículo vasto em atividades e pesquisas das mais variadas. Contudo, centralizou suas pesquisas nas áreas da Parapsicologia, Psicobiofísica, transcomunicação instrumental (TCI), comunicação com mentes extracorpóreas através de aparelhos eletrônicos, sendo o autor mais citado no Brasil e exterior a respeito do tema.
Realizava conferências, seminários, cursos e palestras por todo o mundo, assim como, em espaços onde suas idéias eram ouvidas com maior simpatia e afinidade como é o caso da Associação Médico-Espírita de São Paulo e o Instituto Nacional de Terapia de Vivências Passadas.
Transitava com fidelidade indiscutível em suas investigações, considerando três aspectos fundamentais do Espiritismo: filosofia, ciência e religião. Fundou o Instituto Brasileiro de Psicobiofísica (IBPP), com trabalhos reconhecidos mais no exterior do que no Brasil.
Formou, como colaborador, a primeira turma de Pós-Graduação do Grupo de Pesquisas Psicobiofísicas da USP no campo da integração cérebro/mente/corpo/espírito e transmitiu ao movimento espírita, inúmeras obras frutos de exaustivas pesquisas. 

2.4 PSICOTERAPIA E ESPIRITUALIDADE: RELAÇÕES POSSÍVEIS A PARTIR DA TVP

À existência desta “entidade” chamada espiritualidade é parte integrante na história do ser humano desde tempos longínquos, observando a trajetória religiosa e a ordem da evolução científica
O artigo sob o titulo, As Dificuldades Científicas do Entendimento da Espiritualidade, discute aspectos relacionados às limitações da ciência, quando no entendimento da espiritualidade e seu exercício pratico na relação com os pacientes:
O culto contemporâneo à Ciência - e seus inegáveis êxitos nos mais variados campos -- não modifica sua natureza intrínseca, em especial no que se refere às suas limitações, definidas em sua própria origem. A precisão científica deriva exatamente de uma estrita delimitação de campo e, necessariamente, gera um conhecimento fragmentário [...]. (BARROS, 2003, p.2, grifo do autor).

Continua, citando Pieper (1989) apud BARROS, 2003 em suas pesquisas:
[...] reafirma a tese sustentada por outros autores de que "modestamente críticas em relação a si mesmas, as ciências se limitam ao que pode ser conhecido com precisão, ao particular e, portanto, ao concreto". Em outras palavras, a Ciência só se propõe questões que possa resolver.  Mais grave que isto, eu diria, em muitos casos ignora ou desdenha tudo aquilo que não consiga compreender. (p.2, grifo do autor).

O desenvolvimento exacerbado da razão e do pensamento científico, que assola a psicoterapia entre outras especialidades, pode reduzir sensivelmente a potência terapêutica no trabalho, principalmente por evitar contatar com esses aspectos legados a humanidade.
O texto a seguir se reporta ao fato da iminência de aspectos espiritualizados estarem presentes no processo terapêutico, afirmando que a experiência individual na chamada Psicologia Transpessoal, é o fator mais significativo:
[...] a primazia da experiência individual sobre toda doutrina, religião ou teoria, é sagrada. Por isso, nosso enfoque é eminentemente espiritual, isto é, temos como objetivo a dimensão mais elevada do ser. Nesse caso, o indivíduo é sempre estimulado a expandir cada vez mais sua consciência para alcançar compreensões mais profundas. Isto, porque os enfoques religiosos e teóricos estão presos a um sistema; o espiritual é livre. Ele compreende um esforço que não pressupõe qualquer purificação moral ou espiritual no sentido religioso ou doutrinário, mas o reencontro do homem com sua essência. (VIEIRA, 2008, p.4).

Na atualidade médicos e psicoterapeutas, tendem a não mais negarem no trato com pacientes, a realidade da presença de fatores espirituais e, portanto subjetivos.
Parece que a cada dia que passa a relação entre psicoterapia e espiritualidade, é mais que possível, é fato e desenha-se como uma necessidade, principalmente dentro da proposta da TVP, pioneira na ação técnica de, metodologicamente, compor conceitos distintos numa mesma pratica.
A TVP desbrava esse caminho tão tortuoso, delicado e amplamente criticado pelo modelo vigente de ciência. Estabelece e credita uma relação possível entre psicoterapia e espiritualidade, de forma nunca anteriormente vista ao longo da historia da psicologia enquanto ciência.

2.5  NASCIMENTO E DESENVOLVIMENTO DA TVP

2.5.1 Morris Netherton

O acesso às recordações de vidas passadas é muito antigo. Este acesso foi exercido desde a origem da humanidade, principalmente no homem primitivo cuja primeira religião foi o culto aos antepassados.
Neste período as recordações de vidas passadas não tinham caráter terapêutico. Eram apenas um aspecto da religião e consideradas como prova de grande desenvolvimento espiritual.
Como terapia, a TVP é relativamente recente, nasce na década de 60, através do psicólogo americano Morris Netherton, pioneiro na sistematização do método.
Paralelamente, no mesmo período, Edith Fiore, também americana, sinalizava os primeiros passos para uma metodologia à Terapia de Vidas Passadas. A principal diferença entre os dois é que Fiore utiliza hipnose clássica (direta) procurando o insight e Netherton utiliza hipnose indireta procurando o desenvolvimento da chamada catarse.
Outros precursores que muito contribuíram com a TVP são: Roger Wooger, terapeuta americano da linha de Jung, Hans Tem Dam, Hazel M. Denning e Helen Wambach, dentre outros.
No Brasil citamos especialmente, Lívio Túlio Pincherle, Michel Maluf, Dirce Barsottini, Elaine Gubeissi de Lucca, Maria Julia Prieto Peres, Ney Prieto Peres, Dra. Maria Teodora Ribeiro Guimarães e Hermínia Prado Godoy.
Durante séculos as únicas abordagens que se referiam ao conceito de reencarnação foram a religiosa, a mística e a filosófica. A partir do século passado e, principalmente desde 1950, os cientistas começaram a pesquisar o assunto dentro de uma metodologia própria da academia, como citado no capitulo anterior.
Netherton elabora a técnica durante seu próprio processo psicoterápico, que tinha como foco tratar-se de um problema alérgico de fundo emocional. Sonhava desde criança com um navio que afundava e comentou o fato com sua terapeuta. Trabalhando sobre esses sonhos recorrentes, descobriu seu nome em uma vida anterior e em sessão terapêutica re-vivenciou sua morte por afogamento, resultado de um naufrágio. Na cena, pôde ver também o nome daquele navio e mais tarde através do acesso a documentos relativos ao fato, veio a confirmar o nome da embarcação, a data, a época e o próprio nome que constava na lista dos passageiros.
A partir desse ponto deduz que o seu caso não deveria ser único. Resolveu aprofundar-se no assunto, trabalhando com milhares de pessoas com resultados surpreendentes.

2.5.2 A Técnica Padrão da SBTVP – Dra. Maria Teodora Ribeiro Guimarães

Dra. Maria Teodora Ribeiro Guimaraes é medica psiquiatra, formada em TVP pela Association for Pastlife Research and Therapy, na Califórnia, EUA; membro fundador  e Didata Supervisora  da SBTVP com sede atual na cidade de em Campinas/ SP. A obra da autora conta com um significativo numero de livros publicados.
Desenvolveu a chamada Técnica Padrão à partir de principos fundamentais como: fatos traumáticos, o conceito de caráter, padrões e contra padrões de comportamento, o conceito de “presenças”, a morte, a reprogramação, e o ectoplasma, todos perpassando pela hipotese da reencarnação.
Em escritos de sua autoria, podemos observar a definição clara  e objetiva  sobre o que se trata  a terapia de  vida passada :
A TVP é um tratamento psicológico que se processa com regressões de memória. Sessões de regressão no tempo, partindo da informação, da decodificação que o terapeuta dá ao chamado inconsciente do indivíduo, sobre o problema a ser resolvido, com a proposta de se chegar ao passado, em vivências passadas, em outras vidas, onde supostamente está a origem desse problema.( GUIMARAES, 2008, p.33).

Enfatiza, quando relata de forma simples, que o objetivo basico da TVP é tratar os traumas do passado que repercutem ainda hoje em nossas vidas.
Complementa  ainda, no mesmo texto, questões do processo da TVP relacionadas aos  traumas  e aos momentos  dolorosos, esclarecendo:
Uma incrivel viagem no tempo, sem escalas, que, no fundo, nada mais é do que um vasculhar nos empoeirados arquivos da nossa historia, da nossa memoria, em busca dos episodios mal resolvidos de nossos antigos personagens, cujas sobras, cujos restos de emoçao, de  energia e de dor balançam displicentes e perigosos sobre o nosso conciente, sobre o nosso dia-a-dia, causando outras dores, outras emoçoes, sem causa aparente, e que nao conseguimos compreender.(ibid., p.33).
Todo esse processo em TVP permite que o cliente sinta-se acolhido e potencializado nas suas qualidades, compreendendo que, ao acionar essa nova ferramenta terapêutica, pode reconstruir a vida desabilitando o sofrimento e fortalecendo a  alegria  de viver.
Uma referência de grande importância da TVP neste novo milênio, apreciamos  a seguir:
Acredito que  esta terapia se transformara, neste novo  milênio que se inicia, numa arma extraordinaria para a resoluçao das dores do homem ja cansado de procurar aqui e ali, sem resoluçao, as respostas definitivas para o seu sofrimento. Cansado de mascarar suas tristezas com remedios e suas raivas com escapismos. ( GUIMARAES, 2005, p. 14).

2.6 O NOVO PARADIGMA – VIDAS PASSADAS NO SET TERAPÊUTICO

É importante ressaltar que a mudança de paradigma não está acontecendo apenas de forma conceitual. Na prática, os fenômenos inerentes à imortalidade, à espiritualidade, de um princípio inteligente que preexiste ao corpo e que reencarna sistematicamente em busca de evolução, estão cada vez mais sendo alvo de discussões no meio comum e leigo, mas também de forma velada e tímida, nos espaços reservados ao pensamento acadêmico.
Parece que sustentar a não existência da alma ou do espírito é tarefa trabalhosa, considerando as inúmeras evidências dispostas nos mais variados e sérios trabalhos espalhados pelo mundo.
Guimarães (2000) se refere a isso da seguinte forma:

[...] a TVP muitas e muitas vezes põe por terra nossos mais profundos arquétipos, o que não deixa de ser muito interessante para o pensamento cientifico, que deveria ser desprovido de preconceitos ao analisar a possibilidade de vivencias pretéritas. (p.59).

Por outro lado o manejo técnico do terapeuta é fundamental para que essa experiência possa ser vivenciada seguramente pelo cliente.
Espera-se que o terapeuta de vida passada, esteja devidamente credenciado ao exercício terapêutico, não só pela especialidade e especificidade de tal terapia, mas, antes, pela sua formação original, a de ser um médico ou um psicólogo.
Pincherle, (1990) é enfático diante neste tema:
Uma coisa, sim, me parece importante. Um psicoterapeuta precisa ser confiável não só pela sua integridade e pelos seus conhecimentos, mas, também pela ”potencia terapêutica”, e, como dizem os analistas transacionais, pela capacidade de dar PROTEÇÃO e PERMISSÃO ao paciente em qualquer momento. (p.63, grifo do autor).

Esse cuidado reflete a responsabilidade terapêutica e o papel de facilitador que o terapeuta ocupa ao acompanhar os fatos vivenciados pelo paciente em regressão de memória.
Embora a técnica esteja respaldada no conceito da reencarnação, o paciente não necessita acreditar em tal pressuposto. A eficiência da técnica não esta vinculada a crenças ou dogmas, mas fundamentalmente no processo que se dá através da consciência de sua historia longínqua.
Isso é confirmado em vários relatos de pacientes que se submeteram a TVP:
[...] ha pacientes em dúvida quanto a existência ou não de outras vidas, e alguns são totalmente incrédulos. É interessante que nenhum destes tipos de pacientes alguma vez se referiu as regressões como fantasia ou alucinação.
Pelo contrário, acabaram fortemente inclinados pela aceitação das vidas passadas, uma vez que, conforme me dizem, “não posso negar a existência de outras vidas, pois eu senti, eu vivi, eu mudei... (ibid, p. 99, grifo do autor).

A autora esclarece que facilita a compreensão das experiências vividas pelo paciente (vivencias traumáticas, com forte conteúdo emocional como raiva, vingança, ódio, etc.) apontando como referência, a lei de causa e efeito da física.
A TVP busca a raiz das questões trazidas pelos pacientes através da revelação de conteúdos complexos e pertinentes a todo ser humano, que encontram-se em estado de inconsciência.
O movimento natural para este novo milênio, considerando a história da humanidade, sugere o fortalecimento da TVP, ainda que sustentado pelos resultados e não por uma revisão técnica - teórica da ciência.
Suponho que não se deve negar o obvio e se tratando de TVP, os fatos falam por si só.

2.7 A TVP NA ATUALIDADE

Durante algum tempo, acreditou-se que a TVP não seria mais que um modismo passageiro e por isso, deixaria de ser buscada pelos indivíduos como recurso terapêutico. Muitas pessoas defendiam essa opinião porque não viam consistência teórica ou prática nessa modalidade terapêutica e, em alguns casos, desconheciam estas bases fortemente sustentadas, como é o caso da Técnica Padrão, desenvolvida pela Dra. Maria Teodora Ribeiro Guimarães.
O fato de muitos terapeutas de vida passada não possuírem uma formação básica no campo da saúde mental e uma formação consistente na técnica, colocou a TVP pareada com misticismo e religião aumentando as resistências e os opositores. Todavia, terapeutas sérios e credenciados pela conduta valorosa e pela primazia metodológica, continuam exercendo seu trabalho com ética e compromisso, multiplicando os resultados positivos.
O relato realizado por Rozenkviat (2006), em sua dissertação de mestrado, demonstra um crescimento na utilização da TVP, independente dos apontamentos que faz quanto às controvérsias vinculadas ao tema, a resistência científica, aos resultados aparentemente funcionais (segundo ele), a simbologia envolvida nos casos, etc. Não deixa também de lembrar ao meio acadêmico, a importância de voltar um olhar mais cuidadoso a este novo paradigma.
Finalmente, descreve assim o movimento da TVP:
[...] dado o panorama geral apresentado neste trabalho, podemos perceber que a TVP tem sido aplicada em larga escala, não só por charlatões ou pessoas incultas, mas também por profissionais que verdadeiramente acreditam nesta técnica e nas crenças envolvidas na mesma. Eles tem feito um trabalho sério e se esforçado no desenvolvimento da metodologia... de fato ela aparenta ser funcional em determinados casos... a TVP continua em movimento ascendente de estudo e aplicação... é um fenômeno emergente e atuante que, por isso, merece ser melhor pesquisado pelo meio acadêmico. (p.109).

Talvez o futuro da TVP esteja diretamente relacionado à mudança na visão de homem e de mundo. Uma visão mais ampliada, não só no discurso de sua integralidade biopsicossocial, mas, na pratica da compreensão de sua complexidade, finitude material e imortalidade espiritual.

3. CONCLUSÃO

Como se viu no decorrer deste trabalho, a psicologia vem ao longo do tempo se constituindo como um instrumento de acesso a conteúdos mais subjetivos da constituição da personalidade do ser humano. Este por sua vez, há milênios vem buscando a compreensão do significado de seu existir através de condições condizentes com sua época e realidade; feitiçaria, mitos e filosofia na antiguidade (o ser humano, visto como espiritual e eterno) e a fisiologia, reduzindo o ser a comportamentos observáveis (sec.XIX). Na Modernidade, os primeiros ensaios da psicanálise e posteriormente da dissidente psicologia profunda, esta, marcando por sua vez, o retorno a totalidade do individuo, como um ser alem das características/comportamentos comprováveis em laboratório; reconstituindo uma forma mais abrangente na compreensão dos processos psíquicos, sem desvincular-se totalmente da proposta científica vigente, dando ênfase porem, a existência de um inconsciente complexo e de certa forma, insondável.
A psicologia profunda, trazida a luz do conhecimento pelo psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, marca uma nova era para a tradicional psicologia, abrindo questionamentos sobre a transcendência do ser a partir da ideia do conceito de inconsciente coletivo, que no sec.XX foi denunciado por sua filha, como originalmente chamado por Jung de reencarnação ou vidas sucessivas, como citado anteriormente no decorrer deste trabalho.
Ao longo de milênios de história tal conceito, o da existência da alma imortal e das vidas sucessivas era um fato e esteve em evidencia (uma grande parcela da humanidade já carregava consigo a certeza da reencarnação) e foi rechaçado por caracterizar-se como um aspecto espiritual e, portanto não qualificado dentro da ciência.
O advento da ciência cartesiana, assim como, uma serie de mudanças religiosas e sócio culturais da época, cria uma cisão entre conceitos que conviviam muito bem nas reflexões filosóficas que intentavam conhecer o universo humano nas suas mais variadas nuances.
Sem sombra de duvidas, a ciência colaborou abundantemente com crescimento tecnológico e com a transformação da realidade aprimorando técnicas e fidelizando argumentos que colocaram a psicologia e suas vertentes, assim como as psicoterapias, num patamar de credibilidade e status, atendendo as exigências dos últimos séculos.
Mas como tudo na historia e no universo parece estar provido de dualidade, os ganhos aqui também, implicaram invariavelmente em possíveis perdas. Se por um lado a psicologia ganhou credibilidade e espaço concreto para existir enquanto ciência reconhecida, por outro logrou não considerar devidamente aspectos que originaram sua própria historia.
Ao meio de posições contrárias, de dicotomias impostas, o sofrimento humano carregado dos mais diversos questionamentos relacionados ao sentido da vida, do nascer e do morrer e da necessidade de integração do si mesmo e ainda, diante da impossibilidade da ciência em responder de forma convincente a estas questões, a década de 80 é marcada fortemente pelo advento de um novo paradigma, a TVP.
A revelia de posições radicadas em pólos extremos e opostos, propõe metodologicamente estruturada, a compreensão e o manejo do sofrimento humano através da harmonização de conceitos como psicoterapia e espiritualidade.
Contudo, nesta trajetória histórica da psicologia/psicoterapia, podemos perceber que a TVP sai à frente, como vanguarda de um novo modelo, que concilia os tratados psíquicos científicos às novas evidencias que ampliam a visão na compreensão da complexa constituição do ser humano.
A TVP abre um novo cenário para terapeutas e clientes: mostra-lhes os motivos pelos quais ocorrem determinados fatos em suas vidas, possibilita um novo sentido a esta, e os instrumentaliza para a prática de novos conhecimentos adquiridos.
Não obstante, a harmonização de conceitos (que sofreram cisões ao longo da historia) realizados pela TVP, depende obviamente do método, mas também fundamentalmente da potencia do terapeuta em permitir que tais pressupostos encontrem espaço em atuarem no set terapêutico. (grifo nosso).
Cuidar de pessoas aumenta a responsabilidade que temos perante nós mesmos, e não poderia ser de outra forma. A decisão ética que tomamos ao optarmos ser terapeutas nos colocou nos bancos de uma escola de amor intensivo, chamados a aprender a amar mais profundamente. (GUIMARÃES, 1999, p.369). Se como pessoas não somos capazes de nos abrirmos para novas possibilidades, para reflexões menos rígidas, menos formais e racionalizadas, também como terapeutas, não estaremos devidamente dispostos a este encontro com o outro que nos reflete invariavelmente.Não aceitar novas propostas, não se permitir a aceitação incondicional do outro e sua história peculiar é de certa forma, impor valores pessoais e comportamentais próprios que na condição de terapeuta, pode ser moral, mas não ético. A TVP trabalha com a essência do ser e com o entendimento de que, suas dificuldades e sofrimentos estão centrados no rompimento com esta dimensão essencial. Trabalha, com a possibilidade de contatar com um ser biopsicossocial e espiritualizado, fazendo e refazendo sua historia individual e coletiva ao longo de milênios. Constatou-se um longo tempo histórico - um tempo milenar de lutas e descobertas e de questionamentos buscando ocupar o lugar do vazio existencial que a essência do ser intentava preencher. Compreende-se que a chegada da TVP, marca um novo tempo. Um tempo em que se faz urgente a realização do ser pela compreensão de sua essência, de sua responsabilidade diante da vida e da sua necessidade em evoluir e transformar-se. Nada, aparentemente (depois deste estudo), pode impedir um processo que vem se construindo a longa data, nem mesmo a posição acirrada do racionalismo cientifico. A essência do ser, sua necessidade de ser feliz, reaprendendo valores, coloca-se acima de imposições acadêmicas e reacionárias. Há um tempo para tudo. Um tempo de construções e desconstruções que dependem muitas vezes de atitudes carregadas de coragem. Um tempo natural que segue seu caminho, assim como o curso de um rio, que ainda que desviado, retorna mais cedo ou mais tarde ao seu leito original.

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